Com a chegada do Renascimento, diversos monarcas, príncipes e poderosos encomendaram a construção de jardins fastuosos, anexos às suas casas. A paixão pela natureza, o conhecimento do mundo vegetal e o acúmulo de plantas exóticas vindas dos confins do mundo não foram, contudo, as únicas razões que levaram a tal tarefa jardineira.
Tomemos como exemplo o jardim de Bomarzo, mandado construir por Vicino Orsini nas redondezas de Viterbo, um bosque iniciático onde a presença de figuras mitológicas recriava todo um significado simbólico que, ainda hoje, é objeto de interesse de muitos estudiosos. Ou o jardim que Felipe II mandou construir em Aranjuez, exemplo máximo de urbanismo paisagístico, que serviram, desde o início de sua construção, como depósito de matérias-primas necessárias para a elaboração de quinta-essências e elixires medicinais, fabricados com técnicas alquímicas graças ao trabalho de experientes jardineiros, destiladores e herboristas.
Este duplo significado do mundo vegetal, praticamente perdido na atualidade, foi moeda de uso corrente entre os homens, de todas as épocas, que buscavam na natureza signos e sinais do mágico, do misterioso, do oculto….
OS ENSINAMENTOS DO CENTAURO QUÍRON
Plínio, o grande enciclopedista romano da Antiguidade, conta que o Centauro Quíron foi o primeiro herbo
rista e boticário da humanidade. Esse ser mitológico, metade homem metade cavalo, ficou famoso por seu conhecimento das propriedades medicinais das plantas. Diz a lenda que Apolo lhe confiou a educação de seu próprio filho, Asclépio, o deus da medicina. Desta maneira a humanidade recebeu dos deuses o conhecimento das propriedades medicinais das plantas.
O estudo das propriedades curativas das plantas se perde nas brumas do tempo. Um dos primeiros escritos sobre o tema é chamado Papiro Ebers, com mais de 3.500 anos de Antiguidade. Denominado assim pelo seu tradutor, o egiptólogo George Moritz Ebers, foi encontrado na cidade de Luxor. Trata-se do mais importante escrito sobre a medicina egípcia, no qual se pode identificar cerca de 150 plantas de utilidade terapêutica.
Os primeiros estudos dedicados exclusivamente ao mundo vegetal devem-se a Teofrasto (372-288 a.C), discípulo de Aristóteles e autor de duas grandes obras. A primeira, intitulada De história plantarum, reunia em nove volumes tudo sobre morfologia, descrição, classificação, geobotânica e farmacognosia das plantas conhecidas pelos gregos antigos.
A segunda, De causis plantarum, constava de seis volumes e tratava de temas referentes á germinação, ao desenvolvimento, ao florescimento, á frutificação e até mesmo á proliferação.
Imprescindível também foi a obra do enciclopedista romano Plínio (23-79), único autor do Império Romano que se destacou por sua importância na área da botãnica. Ele escreveu uma enciclopédia chamada Naturalis história, composta de 37 volumes, a metade dos quais dedicada a botânica. Compilou todo o saber de seu tempo, no total, cerca de 2 mil escritos de autores gregos e romanos. Qualquer referência aos usos, costumes e lendas sobre plantas na Antiguidade passa, inexoravelmente, pela consulta do sábio Plínio.
No ano de 78 o viajante Dioscódires, cirurgião dos exércitos de Nero, publicou De materia medica, que se tornaria a bíblia das plantas medicinais para todos os médicos, boticários e amantes da natureza nos 1500 anos seguintes. Em suas viagens Dioscódires percorreu boa parte da região mediterrânea,anotando e recolhendo informações sobre plantas medicinais…..
A chegada dos espanhóis à América significou um novo marco no particular mundo das plantas.Desde as primeiras viagens de Colombo, manifestou-se o intercâmbio cultural entre dois mundos, o Velho e o “Novo”, que tinham muito a compartilhar….. Foram publicadas inúmeras obras destinadas a descrever novas plantas alimentícias, alucinógenas e medicinais.Dessa forma, o espectro mágico do mundo vegetal aumentou consideravelmente.
O momento seguinte, destacado na história das plantas, ocorreu no século XVIII, quando o médico suéco Carl V. Linné (1707-1778) sistematizou os reinos vegetal e animal, organizando-os em famílias, e deu a cada planta um nome específico, em latim, o que ajudou na sua identificação universal.
O UNIVERSO ARBÓREO DOS CELTAS
Se há uma cultura diretamente vinculada ao mundo vegetal, que faz do bosque seu templo e das árvores seus signos do zodíaco,esta é a do povo celta. Habitantes da Europa Central e Ocidental foram derrotados pelos exércitos romanos e confinados na Irlanda, Escócia e País de Gales. O mundo Celta era um mundo mágico que vivia sua magia como algo a mais da vida cotidiana. Desta forma, rios, arroios, passaros e, em especial, as àrvores eram motivos de oferendas.
Os rituais mais importantes estavam relacionados às mudanças das estações, isto é, solstícios, equinócios, tempos de colheita e plantio.
Seu calendário era especial: os dias eram contados a partir da noite e o ano era dividido em 13 meses lunares, divididos por sua vez em dois períodos, que coincidiam com o crescimento e o decrescimento da Lua. Esse ciclo Celta lunar também correspondia aos 13 signos do zodíaco Celta.
Cada mês era associado a uma árvore, cujas as características definiam tanto a personalidade das pessoas nascidas nesse período quanto a energia que imperava neste mês. De acordo com a tradição Celta, a ligação entre seres humanos e árvores era divina, ja que, para eles, foram as árvores que ajudaram Deus a criar o homem. E foi por essa tradição que os signos do Zodíaco Celta se transformaram em signos – arvores. Vejamos quais são….
(24 de dezembro a 20 de janeiro) Bich,Beth,Obeich, a Bétula
(21 de janeiro a 17 de fevereiro) Rowan, a Sorveira
(18 de fevereiro a 17 de março) Ash,Nion,Onuin , O Freixo
(18 de março a 14 de abril) Aldek,Fearn, O Amieiro
(15 de abril a 12 de maio) Willow,Salle , O Salgueiro
(13 de maio a 9 de junho) Hawthorn,Utah, O Espinheiro
(10 de junho a 7 de julho) Oak, Duir, o Carvalho
(8 de julho a 4 de agosto) Holly,Tinne, O Azavim
(5 de agosto a 1 de setembro) Hazel,Coll, a Aveleira
(2 a 29 de setembro) vine,Wine, a Videira
(30 de setembro a 27 de outubro) Ivy,Gort, A Hera
(28 de outubro a 24 de novembro) Reed,Ngetal, o Junco
(25 de novembro a 22 de dezembro) Elder,Ruis, o Sabugueiro
(23 de dezembro) Visco
SANTORIAL BOTANICO
As crenças em plantas divinas e árvores sagradas,presentes na cultura popular da Antiguidade,tentaram ser erradicadas com o Cristianismo. Porém, estavam tão arraigadas na mente dos homens que a igreja não pôde eliminá-las por completo e decidiu assimilar muitas delas. Por esse motivo são varias as ervas e árvores que foram colocadas sob a avocação de um santo,uma santa ou alguma virgem.
Essa tradição parte das próprias origens do Cristianismo,quando as perseguições as quais eram submetidos os primeiros cristãos lhes obrigaram a criar toda uma rica simbologia com a qual manifestavam sua Fé.
A simples leitura da Bíblia,especialmente os Salmos, o Cânticos dos Cânticos e as parábolas evangélicas, demonstra-nos como a metáfora vegetal foi amplamente usada.
SIMBOLISMO VEGETAL NAS CATEDRAIS
…A religião cristã utilizou, desde suas origens, o simbolismo associado ao mundo das plantas. A sociedade medieval tinha amplos conhecimentos em matéria vegetal, então era de se esperar que fosse deste reino que extaíssem os remédios medicinais para todos os tipos de doenças. Essa sabedoria popular foi utilizada pela igreja com um propósito duplo: fundamentar com base científica seu simbolismo e fazê-lo chegar com maior facilidade até o povo.
Entre as plantas esculpidas em monumentos românicos, um dos mais simbólicos da arte medieval, destaca-se o Acanto (acanthus mollis). símbolo de imortalidade na antiguidade clássica. O cristianismo se fixa nos pequenos espinhos desta planta para simbolizar assim o sofrimento do homem pelo pecado cometido e a sua consciência do mesmo…..
A samambaia também foi incluída nos programas iconográficos românicos com o propósito de aproximar a virtude da humildade do povo cristão,assim como a intenção dupla de afastar o mal dos lugares sagrados e recordar ao Cristianismo a vulnerabilidade perante suas ações……..
A palmeira é símbolo de inumeras culturas pagãs e , como não podia ser de outra maneira, esse caráter simbólico foi adotado pelo cristianismo.Dessa forma, a palmeira transformou-se na árvore do Paraíso por excelência e assim aparece representada na vasta iconografia cristã medieval……
Os Homens Verdes
Com este nome alcunhado pela primeira vez em 1939 por Lady Raglan, tem-se conhecimento de algumas imagens típicas de igrejas medievais,caracterizadas por representar rostos humanos de cujas bocas,narizes e orelhas saem folhas. Trata-se de uma representação de origem antiquíssima, claramente pagã, mas que,como se pode ver em outros casos,foi adotada pelo Cristianismo,ressurgindo com força no simbolismo às catedrais medievais.
……essas cabeças foliadas têm sua origem nas culturas celtas e pré-cristãs européias, embora também tenham sido encontrados exemplos caracteristicos em diversas culturas orientais. Acredita-se que simbolizavam a fertilidade e a regeneração,o ciclo natural da vida,e, como tal,foram adotadas pela igreja cristã.
Plantas Mestras
Na segunda metade do século XX, foi adotada uma nova terminologia associada ao mundo mágico das plantas. tratava das chamadas plantas mestras,aquelas que ajudavam na adivinhação dos Xamãs para o tratamento e diagnóstico das doenças.O colombiano nascido na região amazônica Luis Eduardo Luna,doutor pelo instituto de Religiões Comparadas da Universidade de Estocomo e autor de vários livros específicos sobre o assunto,foi quem primeiro utilizou esse nome.Ele pegou o termo dos indígenas da Amazônia peruana,que agiram como seus informantes nos estudos antropológicos realizados na região.
As plantas mestras também se denominam enteógenas , de en theos genos , o mesmo que engendrar o Deus ou gerar o Divino dentro de si.Por que este nome? Enteógeno é um termo que surge como uma alternativa a palavras como alucinógeno,psicodélico,narcótico,para indicar que todas essas plantas que compartilham características semelhantes estavam vinculadas,nas sociedades tradicionais ao sagrado. As sociedades primitivas amazônicas,siberianas e europeias,as tribos originárias de cada continente,utilizavam essas plantas como um meio para alcançar um conhecimento de si mesmas e do mundo que as rodeava.
Fonte de Pesquisa: Livro Historia das Ervas Magicas Medicinais.
Mar Rey Bueno – Editora Madras www.madras.com.br